O saber-fazer ancestral que resiste no tempo e alimenta identidades na Bahia
A tradição artesanal se revela como uma narrativa viva que reflete a participação das africanas escravizadas na composição da cozinha baiana.
Seus cultivos de subsistência e tradições introduziram temperos africanos na comida portuguesa, resultando em uma culinária singular e deliciosa, evidenciando-se em pratos como acarajé, carurus, vatapás, xinxins, moquecas, entre outros, solidificando a cultura ligada ao dendê (Santos; Santos; Santos; Oliveira, 2020; Machado, 2012; Watkins, 2015).
A chamada ‘comida de azeite’ se tornou uma forma de resistência sutil: primeiro como fonte de alimentação e sustento de suas próprias famílias e, eventualmente, para a venda nas feiras, através do plantio em seus quintais.
Tradição religiosa e ancestralidade viva
As religiões de matriz africana, especialmente o Candomblé, mantêm viva essa tradição culinária. Os praticantes reverenciam os Orixás por meio de banquetes e pratos específicos para cada divindade. Essas ofertas culinárias representam os hábitos alimentares cotidianos dos africanos e são preparadas de forma azeitada (Teixeira, 2020; Souza, 2015). No universo do Candomblé, a cozinha não é apenas um espaço de preparo alimentar: ela representa um núcleo de saber e poder simbólico. É nesse ambiente que os terreiros iniciam a formação das principais autoridades religiosas — as mães-de-santo — consolidando o saber-fazer culinário como parte da estrutura espiritual e social da religião (Reis; Silva; Cunha, 2018).
Após colherem os cachos, as famílias iniciam um processo meticuloso de produção do azeite de dendê. Cozinham os frutos em um tacho por um dia inteiro, depois os prensam para extrair o óleo e realizam manualmente a limpeza para retirar os resíduos formados durante o cozimento. Em seguida, purificam a borra novamente no tacho para finalizar o processo. Esse trabalho envolve principalmente a mão de obra familiar — em especial das mulheres — que cuidam de todas as etapas: desde a compra dos ingredientes até a preparação artesanal dos alimentos e a ida ao local de venda dos produtos.
No passado, as comunidades produziam o óleo por meio da moagem manual das frutas do dendê em pilões de madeira. Esse trabalho braçal, lento e exigente resultava em um azeite mais puro e saudável, carregando uma prática secular que ainda hoje simboliza resistência cultural. Com o tempo, os produtores passaram a utilizar moinhos de tração, conhecidos como rodões — equipamentos rústicos inicialmente puxados por pessoas escravizadas e, posteriormente, por animais (Teixeira, 2020). Gradualmente, os rodões deram lugar aos maceradores a diesel e, depois, aos equipamentos elétricos, tornando o processo mais ágil, porém mais distante das suas raízes culturais e simbólicas.
Resistência, território e futuro
Mais do que um ingrediente da culinária ou um produto agrícola, o azeite de dendê artesanal é uma verdadeira herança viva do povo baiano. Seu modo de produção, transmitido oralmente entre gerações, representa um saber-fazer tradicional profundamente conectado ao território e à história das comunidades que o produzem. Cada gesto no processo — do plantio à extração — carrega um conhecimento coletivo, construído com base na experiência, no esforço compartilhado e na relação íntima com a terra e com a cultura afrodescendente.
Esse saber, no entanto, corre o risco de desaparecer. A mecanização da produção e a valorização do azeite industrial, em detrimento do artesanal, têm afastado as gerações mais jovens desse ofício. Além disso, a ausência de políticas públicas voltadas à valorização da agricultura familiar e dos produtos tradicionais dificulta a permanência das famílias na atividade. Proteger e reconhecer essa prática como um patrimônio cultural imaterial é essencial para garantir não apenas sua continuidade, mas também para promover o desenvolvimento econômico e social das comunidades envolvidas.
Valorizar o azeite de dendê artesanal é, portanto, mais do que preservar uma técnica: é reconhecer a força das mulheres negras, das comunidades tradicionais e de um território que resiste por meio de suas práticas e sabores. Incentivar o consumo consciente, apoiar mercados locais e fortalecer iniciativas de certificação — como Indicação Geográfica e Marcas Coletivas — são caminhos possíveis para que essa tradição não apenas sobreviva, mas floresça como símbolo de identidade e potência cultural da Bahia.
Que tal experimentar o verdadeiro azeite de dendê artesanal e apoiar quem preserva essa história viva? Compartilhe este texto e ajude a valorizar os saberes do nosso território.
